"Não há formas, mas a Forma equilibrada e sutil; a sombra única em mil gamas de luz se deforma." Sérgio Buarque de Holanda

Letras e cercas

Vamos escrevendo, escrevendo e escrevendo como se estivéssemos a ponto de nos definir. Definir ou delinear? E parece que o texto que construímos também nos constrói. Será ilusão? Talvez não se construa nada com letras. Talvez, nem mesmo o texto, que já existe nalgum lugar. E nos encontramos no entre-texto, contidos no contexto, escondidos detrás das linhas que também são cercas.

DESSARTE



Energia cinética em desespero.
Último segundo derradeiro.

Estrada deserta, canto abandonado do continente.
Na reta, dois pontos vindo de frente.

Cada um na sua faixa permanece.
Cada um do outro se esquece.
Uma sombra surgiu sorrateira.
Sono, a pálpebra caiu ligeira.

A jamanta na descida virou serpente.
Acordou seu motorista de repente.
Jamanta e carro se fundiram,
Fogo e aço se uniram.

No fim do mundo, no mundo de alguém,
A dor, a morte e mais ninguém.
Horas depois alguém passa,
Vê no acostamento sinais de fumaça.

Derrapagem no asfalto,
E mais ao longe no mato,
Aço e fogo em hiato.

Desastre, acidente, estatística.
Matéria jornalística.
Desesperança cabalística.
Na placa predominava o número sete.

Saiu de casa dizendo até breve.


Personagem principal: desastre.
Estilo: Crônica poética.

Portraits


Sim, sou mesmo introspectivo. Vivo no meu mundo interno cercado de almas. Sempre saio, quando não, ponho a cara na janela. E não me fale em erros, tenho todos. Já quebrei os mandamentos uma e outras vezes. Deus sabe. Sim, creio em Deus até quando descreio, porque descrer é racional e crer é uma questão de sentir e enxergar com outros olhos e sempre se entregar ao absurdo. Gosto de pessoas autênticas. Santas ou putas, do pregador ao pega-dor, todos temos pecados de sobra, e o importante é que sejam verdadeiras. Confiar é humano. Mudo sim, sempre. Mudar é estar em movimento. Não entro duas vezes no mesmo rio. Prefiro dúvidas, convicções são tolas. Acredito em predestinação. Acredito em missão individual também. O mundo é um vitral. Gosto de hora certa, mas como não existe prefiro chegar atrasado. Sou palhaço quando estou com quem amo. E quanto mais amo, mas palhaço eu sou. Sou espelho, imito quem admiro e tenho que me policiar quanto a isso. Eu exagero, mas não gosto de exagero. Receio confins e me prefiro escasso. Não quero ser rico. Quero ajudar as pessoas sim. Amar e mudar as coisas me interessa mais, a frase não é minha, mas de Belchior. É isso. Pra ser honesto sou discretamente feliz.

Com ou sem ornatos


Queria ser simples. Queria dizer coisas simples e fazer coisas simples. Queria que meus pensamentos todos fossem assim e que as coisas fossem simples ou que eu as percebesse tal qual elas são. Se eu fosse simples veria tudo simples e minhas emoções também seriam simplificáveis e os meus gestos e pensamentos também. Dessa forma, até aquelas palavras complexas confusas seriam fáceis. Fósseis. Palavras somente nas minhas mãos. Mas existe um espaço-tempo-em-mim, uma força ou predisposição algo complexa que me impede de simplesmente ser. É uma vontade de potência. Aglutinação que me impele tempestuosamente a tudo querer ser. Tudo querer ter. Tudo querer saber. Tudo. E até este desejo de simplicidade vem como resultado da impotência em concretizar o afã. Como se me voltasse contra mim armado, meu desejo de simplicidade é vítima do desespero de descobrir o que está por trás do tudo e da impossibilidade disto. Queria ser simples porque é absurdo não querer e até estúpido tendo em vista que quanto mais complexidade menos comodidade e conformidade. Se eu não quisesse saber o que há por trás das coisas uma flor seria uma flor, um cão seria um cão. Sol, lua, estrelas, nuvens, vento, montes, selva seriam apenas sol, lua, estrelas, nuvens, vento, montes, selva, com toda poesia contida neles quando são justamente o que são. A coisa sendo a própria metáfora de si. A mulher sendo alusão a própria mulher e eu aludindo a mim. Quem deseja conhecer todos os mistérios é um alquimista bêbado de ócio. Bêbado dos próprios mistérios físicos, químicos, fisiológicos, lógicos, metafísicos, teológicos e espirituais... Quero mesmo é que as coisas complexas sejam simples, mas talvez elas sejam simples – talvez a junção delas é que seja complexa e como tudo o que vejo é junção, conjunção, ligação, o todo acaba sendo complexo. Eu chegaria se pudesse, ao ponto onde tudo é discordantemente desconcertante simples. No ponto em que ninguém precisaria pensar no que disse, digo ou desejei dizer. Onde eu não pensaria pra dizer. Só diria.

Neuron



Bom, não é poesia nem narrativa, mas uma crônica. Porque inovar é preciso (lema do meu chefe...)

É sobre os avanços do paulista Miguel Nicolelis, considerado a maior autoridade global em neurosciência. Ele conseguiu fazer uma macaca mover um braço mecânico apenas com comandos da mente, e soltou isto: "A neurosciência vai libertar a mente do corpo num futuro próximo."

Isso possibilita muitas coisas: uma existência livre de doenças e o fim do envelhecimento. Talvez a vida eterna real, aqui e agora, e a possibilidade de mover as coisas ao redor apenas com a mente: celulares, computadores, o carro, o microondas, as máquinas... igual o Mestre Yoda. Então eu me pergunto: valeria a pena? O que aconteceria com a consciência nestas circunstâncias?

Sabe-se que sentimentos são uma química complexa entre corpo e mente, entre glândulas, hormônios, enfim... se transferíssemos o cérebro para uma máquina, provavelmente não teríamos mais sentimentos, seríamos apenas seres lógicos e monótonos. Sabe aquela música: "Socorro não estou sentindo nada... nem pressa, nem dor, nem medo, nem amor..." Então!

Qual seria o preço do fim das mazelas da carne? Imagine, se eu adoecer, basta dar ctrl + alt + del e reiniciar o sistema. Se o nosso sistema operacional for Windows, f*** tudo, vamos travar o tempo todo!

- Vamos ao cinema?
- Não dá, estou com um malware. Vou ao Dr. Norton Antivírus restaurar.

Seríamos capazes de apreciar a beleza, de sentir o cheiro da chuva na relva e relaxar, de chorar e de sorrir? Na integração entre mente e máquina, seremos mais humanos ou mais máquinas?

Achei maravilhoso as próteses controladas pela mente em amputados (com sensação tátil inclusive!!!) Mas ir mais profundo do que isto eu não achei não. Sei lá, senti calafrio.

Tenho medo de virar um pateta como o C3PO.

Gosto de sentir fome, sede, frio... gosto de apreciar uma boa feijoada, mesmo que eu possa ter um enfarte ou desenvolver câncer e morrer. Eu prefiro viver bem por um tempo do que viver eternamente em uma vida que não é mais vida. Não quero ser uma máquina eterna. O Homem Bicentenário (Robin Williams) conta a história de uma máquina que se torna um homem. Talvez a neurosciência faça o inverso.

A vida eterna teria um preço alto demais: nossa humanidade, ou estou sendo apenas cético?

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Ah, prestigiem meu blog: textosselvagens.blogspot.com - reescrevi alguns textos meus daqui, espero que agrade.

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